2013-09-01

Menino Jesus

Letra e música: Popular (Campo Maior, Alto Alentejo)
Recolha: Michel Giacometti 
Intérprete: Brigada Victor Jara* (in LP "Quem Sai aos Seus", Vadeca, 1981, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)





[instrumental]

Ó meu Menino Jesus, 
Ó meu menino tão belo, 
Onde foste a nascer
Ao rigor do caramelo! [bis] 

Ó meu Menino Jesus,
Não queiras menino ser!
No rigor do caramelo 
A neve te faz gemer. [bis]

[instrumental]

O Menino da Senhora 
Chama pai a São José, 
Que lhe trouxe uns sapatinhos 
Da feira de Santo André. [bis]

[instrumental]

O Menino chora, chora, 
Chora pelos sapatinhos;
Haja quem lhe dê as solas,
Que eu lhe darei os saltinhos. [bis]
  
[instrumental]

Dá-me o teu Menino!
Não dou, não dou, não dou!
Dá-me o teu Menino,
Vai à missa que eu lá vou.
Dá-me o teu Menino! 
Não dou, não dou, não dou!
[4x]


Glossário: 
A palavra "caramelo", nesta acepção, significa "gelo" (geada, neve, granizo). 

Nota: «Canto recolhido em Campo Maior. Canta-se no Natal, já pelas ruas, já em família, acompanhado do popular instrumento designado por ronca, ou zabumba. A ronca [sarronca] é constituída por um púcaro de barro ao qual se adapta um pedaço de pele de anho, retesada e solidamente atada, através da qual passa um junco que o executante fricciona por meio de um movimento de vaivém.» (Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, in "Portuguese Folk Music": vol. 4 - Alentejo, Strauss, 1998; "Música Regional Portuguesa": CD 5 - Alentejo, col. Portugal Som, Numérica, 2008) 

* Brigada Victor Jara:
Amílcar Cardoso – baixo, viola, bombo e coros
Manuel Rocha – violino, bandolim e coros
Ananda Fernandes – viola, bandolim, voz solo e coros
Joaquim Caixeiro – bombo, caixa, sarronca, voz solo e coros
Zé Maria – viola, bandolim, braguesa, baixo, cavaquinho, pífaro, voz solo e coros
Rui Curto – acordeão, concertina, viola, castanholas, adufe e coros
Arnaldo Carvalho – viola, baixo, trancanholas, matrecos, voz solo e coros
Fátima Maia – voz solo e coros
Jorge Seabra – gaita-de-foles, cavaquinho, flauta travessa, ocarina, chincalhos e coros
Assistente de produção – João Donato
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnicos de som – Moreno Pinto e Jorge Barata

Quando Um Homem Quiser

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
Orquestração: José Luís Simões
Intérprete: Paulo de Carvalho* (in LP "MPCC", Orfeu, 1976; CD "Paulo de Carvalho", col. O Melhor dos Melhores, vol. 19, Movieplay, 1994; 2CD "Antologia: 40 Anos", Movieplay, 2002; CD "Vida", Farol Música, 2006)





Tu que dormes à noite na calçada do relento,
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento;
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento,
És meu irmão, amigo, és meu irmão!

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme,
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume;
E sofres o Natal da solidão sem um queixume,
És meu irmão, amigo, és meu irmão!

Natal é em Dezembro 
Mas em Maio pode ser.
Natal é em Setembro,
É quando um homem quiser.
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer,
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar;
Tu que inventas bonecas e comboios de luar,
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar,
És meu irmão, amigo, és meu irmão!

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei,
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei,
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei,
És meu irmão, amigo, és meu irmão!

Natal é em Dezembro 
Mas em Maio pode ser.
Natal é em Setembro,
É quando um homem quiser.
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer,
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar;
Tu que inventas bonecas e comboios de luar,
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar,
És meu irmão, amigo, és meu irmão!

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei,
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei,
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei,
És meu irmão, amigo, és meu irmão!

És meu irmão, amigo, és meu irmão!

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Paulo de Carvalho – voz, coros, guitarra baixo, bateria, percussão, arranjos
Júlio Pereira – guitarras, arranjos
Rui Reis – piano, arranjos
José Luís Simões – guitarra eléctrica, guitarra baixo, trombone, orquestrações
Alfredo Azinheira – guitarra baixo
Guilherme Inês – bateria, congas
Rui Ressurreição – piano
Rui Cardoso – saxofones
Produção – Paulo de Carvalho
Gravado nos Estúdios Rádio Triunfo, Lisboa
Técnico de som – José Manuel Fortes

Homem Só, Meu Irmão

Letra e música: Luiz Goes
Intérprete: Luiz Goes* (in LP "Canções do Mar e da Vida", Columbia/VC, 1969, reed. EMI-VC, 1995; 2LP/CD "O Melhor de Luiz Goes", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Canções Para Quem Vier: Integral 1952-2002": CD3, EMI-VC, 2002, EMI, 2013; CD "O Melhor de Luiz Goes", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)





[instrumental]

Tu, a quem a vida pouco deu,
que deste o nada que foi teu 
em gestos desmedidos... 
Tu, a quem ninguém estendeu a mão 
e mendigas o pão dos teus sentidos,
homem só, meu irmão! 

[instrumental]

Tu, que andas em busca da verdade 
e só encontras falsidade 
em cada sentimento, 
inventa, inventa, amigo, uma canção 
que dure para além deste momento, 
homem só, meu irmão! 

[instrumental]

Tu, que nesta vida te perdeste 
e nunca a mitos te vendeste 
– dura solidão –,
faz dessa solidão teu chão sagrado, 
agarra bem teu leme ou teu arado, 
homem só, meu irmão! 


* João Figueiredo Gomes – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Julho de 1969
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio

Queda do Império

Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in LP "Flor de la Mar", EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; 2CD "As Mais Bonitas", EMI-VC, 1993; 3CD "Tudo", EMI-VC, 2006)





Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz

Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e Mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

[instrumental]

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz

Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e Mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor


* Arranjo para banda e direcção – Sílvio Pleno
Trompas – António P. da Costa, Francisco C. Frazão
Trompetes – António R. Gomes, António F. Casquinha
Trombone – João N. Costa
Tuba – Domingos Gaspar
Bombardino – Manuel de Faria
Flauta e flautim – António Laureano Martins
Saxofone soprano – José Salomé Vieira
Bateria – José A. Pires
Caixas – José R. Vitorino, António S. de Oliveira
Clarinete – Sílvio Pleno
Acordeões – Baíco, João Lucas
Violas Ovation – Carlos Salomé, Vitorino
Baixo acústico – Pedro Wallenstein
Voz feminina – Filipa Pais
Direcção musical e arranjos – Vitorino, Pedro Caldeira Cabral e Janita Salomé
Produção – Vitorino, Manuel Salomé e Francisco Vasconcelos
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnicos de som – António Pinheiro da Silva e Pedro Vasconcelos
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008

Poema da Malta das Naus

Poema: António Gedeão (in "Teatro do Mundo", Coimbra, 1958; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997)
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire* (in EP "Dulcineia", Zip-Zip, 1971; CD "Pedra Filosofal" (compilação), Strauss, 1993, CNM, 2004) 





Lancei ao mar um madeiro, 
espetei-lhe um pau e um lençol. 
Com palpite marinheiro 
medi a altura do Sol. 

Deu-me o vento de feição, 
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo, 
rebotalho de gibão. 

Dormi no dorso das vagas, 
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas, 
mordi peloiros e zagaias. 

Chamusquei o pêlo hirsuto, 
tive o corpo em chagas vivas, 
estalaram-me as gengivas, 
apodreci de escorbuto. 

Com a mão esquerda benzi-me, 
com a direita esganei. 
Mil vezes no chão, bati-me, 
outras mil me levantei. 

Meu riso de dentes podres 
ecoou nas sete partidas. 
Fundei cidades e vidas, 
rompi as arcas e os odres. 

Tremi no escuro da selva, 
alambique de suores. 
Estendi na areia e na relva 
mulheres de todas as cores. 

Moldei as chaves do mundo 
a que outros chamaram seu, 
mas quem mergulhou no fundo 
do sonho, esse, fui eu. 

O meu sabor é diferente. 
Provo-me e saibo-me a sal. 
Não se nasce impunemente 
nas praias de Portugal.


* Arranjo e direcção – Thilo Krasmann
Produção – Zip-Zip
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro

A Nau Catrineta

Letra: Tradicional (versão de Lisboa) (in "Romanceiro", de Almeida Garrett, Lisboa, 1843, reed. Porto: Livraria Simões Lopes, 1949; Lisboa: Estampa, 1983; Lisboa: Ulisseia, 1997)
Música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias* (in LP "Histórias de Viageiros", Orfeu, 1979, reed. Movieplay, 1991, 1999)





[instrumental]

Lá vem a Nau Catrineta

Que tem muito que contar!
Ouvide agora senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitam sortes à ventura,
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão-general.
– «Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal!»
– «Não vejo terras de Espanha
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar.»
– «Acima, acima, gajeiro,
Acima, ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»
– «Alvíssaras, capitão, 
Meu capitão-general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar.»
– «Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.»
– «A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.»
– «Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.»
– «Não quero o vosso dinheiro,
Pois vos custou a ganhar.»
– «Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.»
– «Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar.»
– «Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de eu dar?»
– «Eu quero a nau Catrineta,
Para nela navegar.»
– «A nau Catrineta, amigo,
É de el-rei de Portugal.
Pede-a tu a el-rei, gajeiro,  | bis
Que ta não pode negar.»    |

[instrumental]



Nota: «"A Nau Catrineta" foi provavelmente o nome popular de algum navio favorito: diminutivo de afeição posto na Ribeira das Naus a algum galeão "Santa Catarina", ou coisa que o valha. Dar-lhe-iam esse apelido coquete por sua airosa mastreação, pelo talhe elegante de seu casco, por algumas dessas qualidades graciosas que tanto aprecia o olho exercitado e fino da gente do mar. Ou talvez é o nome suposto de um navio bem conhecido por outro, que o discreto menestrel quis ocultar considerações pessoais e respeitos humanos. Entre as narrativas em prosa que já citei, há uma por título – "Naufrágio Que Passou Jorge de Albuquerque Coelho, Vindo do Brasil no ano de 1565" – que não está muito longe de se parecer com a do romance presente. Larga e difícil viagem, temporais assombrosos, fome extrema, tentativas de devorarem os mortos, resistência do comandante a esta bruteza, milagroso surgir à barra de Lisboa quando menos o esperavam, e quando menos sabiam em que paragens se achassem – tudo isto há na prosa da narração; e até o poético episódio de estarem a ver os monumentos e bosques de Sintra sem os reconhecer – como na xácara se viam, pela falsa miragem do demónio, as três meninas debaixo do laranjal.» (Almeida Garrett, in "Romanceiro", Lisboa, 1843)


* [Créditos gerais do disco:]

António Chainho – guitarra portuguesa
Zé Eduardo – viola baixo
Pintinhas – percussões e assistiu na produção
Carlos Meses – harmónica
José António – harmónica baixo
Rui Cardoso – flauta
Correia Martins – violino
Carlos Guerreiro – viola braguesa
Fausto Bordalo Dias – viola
Colaboração (muito) especial de:
Trovante – cavaquinho, viola braguesa, bandolim, alaúde, viola, flautas, charamela, acordeão, piano, percussões e coros
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa, durante o Verão de 1979
Som e mistura – Moreno Pinto

Praia das Lágrimas

Letra: Carlos Tê
Música: Carlos Tê e Rui Veloso
Arranjo: Mário Delgado
Intérprete: Filipa Pais* (in 2CD "Voz & Guitarra", Farol Música, 1997)
Versão original: Rui Veloso (in 2LP/CD "Auto da Pimenta", EMI-VC, 1991)





.....................................................
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.

...............................................
E nós, com a virtuosa companhia
De mil religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Para os batéis viemos caminhando.


LUÍS VAZ DE CAMÕES (in "Os Lusíadas", 1572 – Canto IV,
excertos das estrofes 92 e 88)


[instrumental]

Ó mar salgado, eu sou só mais uma
Das que aqui choram e te salgam a espuma.

Ó mar das Trevas, que somes galés,
Meu pranto intenso engrossa as marés.

Ó mar da Índia, lá nos teus confins,
De chorar tanto tenho dores nos rins.

Choro nesta areia: salina será?
Choro toda a noite, seco de manhã.

Ai, ó mar Roxo, ó mar abafadiço,
Poupa o meu homem, não lhe dês sumiço!

[instrumental]

Que sol é o teu nesses céus vermelhos?
Que eles partem novos e retornam velhos!

Ó mar da calma, ninho do tufão,
Que é do meu amor? Seis anos já lá vão!...

Não sei o que o chama aos teus nevoeiros:
Será fortuna ou bichos-carpinteiros?

Ó mar da China, Samatra e Ceilão,
Não sei que faça: sou viúva ou não?

Não sei se case: notícias não há...
Será que é morto ou se amigou por lá?

[instrumental / coros]


* Filipa Pais – voz, coros
Mário Delgado – viola acústica de 6 e 12 cordas
Produção – Manuel Paulo Felgueiras
Gravado e misturado por Tiago Lopes e Nuno Grácio, no Regiestúdio, Amadora, durante os meses de Setembro, Outubro e Novembro de 1997
Masterizado por Jules Newell, no estúdio Mission Control, Lisboa

Canção do Mar

Letra e música: José Afonso
Arranjos/adaptação: Rui Tinoco
Intérprete: Frei Fado d'El Rei* (in CD "Senhor Poeta: Um Tributo a José Afonso", Bartilotti Produções/Ovação, 2007)
Versão original: José Afonso (in EP "Cantares de José Afonso", Columbia/VC, 1964; LP "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1992; CD "Encontros em Coimbra", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)





[instrumental]

Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

[vocalizos / instrumental]

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

[instrumental]

Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

[vocalizos / instrumental]

Ó mar...
Ó mar...
Ó mar...


* Frei Fado d'El Rei: 
Carla Lopes – voz e percussões
Cristina Bacelar – guitarra clássica, voz, coros e percussões
José Flávio Martins – baixo eléctrico-acústico, bandola, coros e bombos tradicionais
Ricardo V. Costa – guitarra clássica, coros e castanhola de cana
Rui Tinoco – teclados, samplers e programações
Zagalo – percussões e coros
Produção – Frei Fado d'El Rei
Gravação, mistura e masterização – Luís Moreira (Mike), no Estúdio Companhia do Som, Porto, entre Janeiro e Março de 2007
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007

Ao Longe o Mar

Letra e música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in CD "O Espírito da Paz", EMI-VC, 1994)





[instrumental]

Porto calmo de abrigo
Dum futuro maior
Inda não está perdido 
No presente temor

Não faz muito sentido
Já não esperar o melhor
Vem da névoa saindo
A promessa anterior

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parada a olhar

[instrumental]

Sim, eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parada a olhar

Quando avistei 
Ao longe o mar
Sem querer
Deixei-me ali ficar

[instrumental]


* Madredeus:
Teresa Salgueiro – voz
José Peixoto – guitarra clássica
Pedro Ayres Magalhães – guitarra clássica
Francisco Ribeiro – violoncelo
Gabriel Gomes – acordeão
Rodrigo Leão – teclados
Produção – Pedro Ayres Magalhães / União Lisboa Produções Audiovisuais, Lda.
Produção executiva – António Cunha
Gravado e misturado nos estúdios Great Linford Manor e Lansdowne Recording Studios, Inglaterra, entre 27 de Março e 5 de Maio de 1994
Engenheiros de som – António Pinheiro da Silva e Jonathan Miller
Assistente (em Great Linford Manor) – Andy Griffin
Assistente (em Lansdowne Recording Studios) – Mark Tucker
Masterizado no estúdio CTS, Londres, a 4 de Maio de 1994
Montagem digital – Mike Brown

Fui à Beira do Mar

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)





[instrumental]

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia;
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:

"Ó cantador alegre,
Que é da tua alegria?
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria!"

[instrumental]

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia;
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia.

[instrumental]

Desde então a bater
No meu peito, em segredo,
Sinto uma voz dizer:
"Teima, teima sem medo!"

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"

[instrumental]


* Trabalho de grupo de: Benedicto, Carlos Alberto Moniz, Carlos Medrano, Carlos Villa, Ernesto Duarte, José Afonso, José Dominguez, José Jorge Letria, José Niza, Maite, Maria do Amparo, Pedro Vicedo, Pepe Ébano e Teresa Silva Carvalho
Produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Celada, Madrid, de 6 a 13 de Novembro de 1972
Captação de som – Paco Molina, António Olariaga, Pepe Fernandez, Juan Carlos Ramirez e Juan António Molina
Mistura – Paco Molina
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio

Pedra Filosofal

Poema: António Gedeão (in "Movimento Perpétuo", Coimbra, 1956; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997)
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire* (in single "Pedra Filosofal / Menina dos Olhos Tristes", Zip-Zip, 1970; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004; 2CD "Poesia Encantada", EMI-VC, 2002)





Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida 
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista, 
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham, 
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


* Viola – Fernando Alvim
Arranjo – Thilo Krasmann
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires

Cantiga para Quem Sonha

Letra: Leonel Neves
Música: João Figueiredo Gomes
Intérprete: Luiz Goes* (in LP "Canções de Amor e de Esperança", Columbia/VC, 1972, reed. EMI-VC, 199?; 2LP/CD "O Melhor de Luiz Goes", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Canções Para Quem Vier: Integral 1952-2002": CD3, EMI-VC, 2002)





[instrumental]

Tu, que tens dez réis de esperança e de amor,
Grita bem alto que queres viver!
Compra pão e vinho, mas rouba uma flor!
Tudo o que é belo não é de vender.

Não vendem ondas do mar,
Nem brisa ou estrelas,
Sol ou lua cheia.
Não vendem moças de amar,
Nem certas janelas 
Em dunas de areia. 

Canta, canta como uma ave ou um rio!
Dá o teu braço aos que querem sonhar!
Quem trouxer mãos livres ou um assobio, 
Nem é preciso que saiba cantar.

[instrumental]

Tu, que crês num mundo maior e melhor,
Grita bem alto que o céu está aqui!
Tu, que vês irmãos, só irmãos, em redor,
Crê que esse mundo começa por ti! 

Traz uma viola, um poema,
Um passo de dança,
Um sonho maduro.
Canta glosando este tema:
Em cada criança
Há um homem puro.

Canta, canta como uma ave ou um rio!
Dá o teu braço aos que querem sonhar!
Quem trouxer mãos livres ou um assobio, 
Nem é preciso que saiba cantar.

[instrumental]

Canta, canta como uma ave ou um rio!
Dá o teu braço aos que querem sonhar!
Quem trouxer mãos livres ou um assobio, 
Nem é preciso que saiba cantar.

[instrumental]


* Violas – António Toscano e João Figueiredo Gomes
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio

Esperança

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", Orfeu, 1986, reed. Movieplay, 2004; 2CD "Antologia 1982-1990", Movieplay, 2005)





Se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade, assim 
com esta mão
e então descobriremos o mais profundo fundo 
que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas que há razão
que é no irmos fundo às coisas que há razão
de verdades consumadas me consomem
de falácias bem montadas me alimentam
mas, meu filho, mora o reino do futuro
que é mais duro
e não vai ser com palavras que o contentam
e não vai ser com palavras que o contentam

[instrumental]

Se a morte lenta te rebenta sob a pele
a cada dia
e se no teu braço apenas sentes é a força 
de um cansaço organizado
mas manténs na tua fronte a dúvida
e o gosto pelo longe e a maresia
e se sentes no teu peito de criança
a alma de um sonho amordaçado
se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade, assim 
com esta mão
e então descobriremos o mais profundo fundo 
que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas que há razão
que é no irmos fundo às coisas que há razão

Iste mundus furibundus falsa prestat gaudia,
quia fluunt et decurrunt ceu campi lilia.
Laus mundana, vita vana vera tollit premia,
nam impellit et submergit animas in tartara.
[3x]

(in "Carmina Burana", c.1230)

[Este mundo furibundo nos dá falsas alegrias,
que fluem e se dissipam como pelos campos os lírios. 
Louvores mundanos, vida vã afastam-nos dos veros prémios,
para impelir e submergir nossas almas no Tártaro.]


* [Créditos gerais do disco:]
Abel Moura – acordeão
António Chainho – guitarra portuguesa
Catarina Latino – flautas barrocas
Guilherme Inês – caixa de ritmos e pandeiretas
João Nuno Represas – tablas, cana, clavas e maracas
José Carlos Gonçalves – violoncelos
Pedro Barroso – viola beiroa, tímpanos, vibrafone, viola e reco
Pedro Fragoso – bandolins, piano, viola campaniça e órgão
Rui Luís Pereira "Dudas" – viola e viola de 12 cordas
Sérgio Mestre – flauta transversal
Zé da Ponte – baixo eléctrico
Coro de Santo Amaro de Oeiras – coros; dir. Pedro Barroso
Arranjos, direcção musical e produção executiva – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Janeiro e Fevereiro de 1986
Engenheiros de som – João Vaz de Carvalho e Jorge Barata
Misturas – João Vaz de Carvalho e Pedro Barroso
Masterização – José António Regada
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio

Fala do Homem Nascido

Poema: António Gedeão (ligeiramente adaptado) [>> texto original abaixo]
Música: José Niza
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP "Cantaremos", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; "Obra Completa": CD "Gente de Aqui e de Agora e Outras Canções: Adriano Canta José Niza", Movieplay, 1994, 2007)





[instrumental]


Venho da terra assombrada,

Do ventre da minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido

Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer

E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,         | bis
Que a vida é água a correr.  |
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

[instrumental]


Minha barca aparelhada

Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,

Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

[instrumental]


Com licença! Com licença!

Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.   | bis
Mesmo morto hei-de passar.   |
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

[instrumental]


Venho da terra assombrada,

Do ventre da minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido

Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.


* Rui Pato – viola

Biografia e discografia em: A Nossa Rádio



FALA DO HOMEM NASCIDO


(António Gedeão, in "Teatro do Mundo", Coimbra, 1958; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997)



(Chega à boca de cena, e diz:)


Venho da terra assombrada,

do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido

por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer

e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada

solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,

que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!

Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.